Após mais de 200 ataques incendiários desde 2023, seguradoras passaram a negar ou encarecer a cobertura de estabelecimentos próximos a tabacarias. A crise mostra como o avanço do mercado clandestino pode atingir comerciantes, consumidores e toda a economia local.
A disputa pelo controle do mercado ilegal de tabaco na Austrália ganhou uma nova dimensão. Pequenos negócios localizados perto de tabacarias estão tendo seguros recusados, recebendo propostas sem cobertura contra incêndios ou enfrentando valores que tornam a contratação inviável.
O problema se intensificou após uma série de ataques com bombas incendiárias contra estabelecimentos comerciais. Em um dos episódios mais recentes, um incêndio iniciado em uma tabacaria de Richmond, em Melbourne, destruiu quase uma dúzia de lojas vizinhas e mobilizou cerca de 80 bombeiros.
Desde 2023, grupos criminosos foram relacionados a mais de 200 ataques incendiários contra imóveis comerciais e residenciais na Austrália, segundo dados governamentais citados pelo jornal britânico The Guardian. As ações fazem parte da disputa entre organizações interessadas no controle da venda clandestina de cigarros.
Agora, mesmo comerciantes que não possuem qualquer envolvimento com o setor de tabaco estão pagando a conta.
Lojas vizinhas se tornaram risco para as seguradoras
Um comerciante de Melbourne relatou que sua seguradora se recusou a renovar a apólice porque o estabelecimento ficava a poucas portas de uma tabacaria. Outras empresas chegaram a oferecer seguro, mas excluíram a cobertura contra incêndios.
Corretores consultados na Austrália consideram que estabelecimentos localizados a aproximadamente 20 metros de uma tabacaria podem estar expostos a um risco maior. A avaliação varia conforme a localização, o tipo de comércio e o histórico da região.
Na prática, uma padaria, uma loja de roupas ou um restaurante podem perder a cobertura simplesmente por estarem próximos de um estabelecimento considerado alvo potencial.
A localização também pode afetar o valor dos imóveis comerciais, reduzir a circulação de consumidores e dificultar a permanência de pequenos negócios na região. A Comissão Australiana de Inteligência Criminal aponta que empresas próximas aos locais atacados sofrem com perda de movimento, queda na receita e danos à reputação.
O impacto não termina quando o fogo é controlado.
Um incêndio pode destruir toda a atividade comercial da região
Os ataques contra tabacarias frequentemente atingem imóveis vizinhos, estoques, equipamentos e estruturas compartilhadas. Mesmo quando uma empresa não é diretamente destruída, o estabelecimento pode permanecer fechado durante investigações, reformas ou perícias.
Sem uma apólice adequada, o comerciante precisa arcar com os prejuízos ou encerrar as atividades.
Representantes dos pequenos negócios australianos defendem uma resposta conjunta do governo, das autoridades policiais, dos reguladores e do setor de seguros. Para essas entidades, empresas que não participam do comércio ilegal não deveriam assumir sozinhas as consequências financeiras da atuação de organizações criminosas.
A situação revela como um mercado clandestino pode produzir custos muito maiores do que a simples perda de arrecadação. A criminalidade passa a influenciar contratos de seguro, aluguel de imóveis, circulação de clientes, geração de empregos e sobrevivência de empresas locais.
Como a Austrália chegou a esse cenário?
A Austrália adotou uma das políticas mais restritivas do mundo para produtos de tabaco e nicotina. O país mantém impostos elevados sobre os cigarros e limita a venda legal de vapes ao sistema de farmácias.
A diferença de preço entre o mercado legal e o clandestino se tornou um dos principais combustíveis da crise. Um maço legal pode custar mais de 40 dólares australianos, enquanto versões ilegais são encontradas por aproximadamente 10 dólares.
Em 2025, o tabaco ilícito teria representado 80% dos cigarros consumidos pelos australianos, segundo dados atribuídos ao Australian Bureau of Statistics pelo The Guardian. O tamanho desse mercado aumentou o interesse de organizações criminosas, que passaram a disputar pontos de venda, rotas de distribuição e territórios comerciais.
Tabacarias que atuam legalmente também podem ser ameaçadas ou atacadas por grupos interessados em ampliar sua presença no mercado. Com isso, o simples fato de operar nesse segmento, ou de estar perto de quem opera, tornou-se um problema para a contratação de seguros.
A crise abriu um debate político sobre a eficácia do atual modelo. Parte da oposição australiana defende a redução dos impostos sobre os cigarros e a criação de um mercado legal mais acessível para vapes e sachês de nicotina. O objetivo seria diminuir a vantagem financeira do contrabando e retirar consumidores das redes clandestinas.
Outros grupos defendem o reforço da fiscalização nos portos, das investigações financeiras e das operações contra os pontos de venda ilegais.
Quando a proibição não elimina a demanda
A experiência australiana expõe uma questão central das políticas proibicionistas: quando a demanda continua existindo, a ausência de canais legais pode transferir o abastecimento para organizações clandestinas.
Esses grupos não seguem limites de idade, padrões de fabricação, regras de rotulagem, controle de ingredientes ou sistemas de rastreabilidade. Também não recolhem impostos e podem usar os lucros para financiar outras atividades criminosas.
No caso australiano, a diferença entre o preço legal e o ilegal transformou os cigarros clandestinos em um negócio altamente lucrativo. A disputa por esse dinheiro saiu dos bastidores e chegou às ruas por meio de ameaças, extorsões e incêndios criminosos.
O resultado é um mercado no qual o governo perde controle, os consumidores não sabem exatamente o que estão comprando e comerciantes sem relação com o setor passam a enfrentar riscos financeiros e patrimoniais.
O que o caso australiano ensina ao Brasil
O Brasil também utiliza impostos elevados sobre os cigarros tradicionais como estratégia para encarecer o produto e reduzir o consumo. Embora os cigarros permaneçam legalizados e regulamentados, a diferença de preços abriu espaço para um amplo mercado clandestino.
Uma pesquisa do Ipec apontou que os cigarros ilegais já representam 32% do consumo nacional. A presença desses produtos provoca uma sonegação superior a R$ 7 bilhões por ano e sustenta uma cadeia controlada por organizações criminosas, que atuam no contrabando, na falsificação, na distribuição e na lavagem do dinheiro obtido com as vendas.
Segundo o Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras, o contrabando de cigarros pode alcançar uma margem de lucro de 507%, tornando o produto uma fonte altamente lucrativa de financiamento para facções criminosas.
A atuação dessas organizações já avançou para dentro do território brasileiro. Entre 2022 e maio de 2026, 41 fábricas clandestinas de cigarros foram fechadas no país. Algumas utilizavam trabalhadores paraguaios em condições semelhantes à escravidão e falsificavam marcas estrangeiras já conhecidas pelos consumidores. A produção local reduz os custos logísticos das quadrilhas e diminui o risco de perda das cargas nas fronteiras.
Além desse mercado ilegal de cigarros convencionais, o Brasil mantém desde 2009 a proibição dos dispositivos eletrônicos para fumar. A medida foi ampliada pela RDC 855/2024 da Anvisa, que proíbe fabricação, importação, comercialização, distribuição, armazenamento, transporte e publicidade desses produtos.
Apesar da proibição, os vapes permanecem disponíveis em lojas, redes sociais, plataformas digitais e pontos de venda informais.
Dados apresentados pela Folha de S.Paulo mostram que as apreensões de cigarros eletrônicos chegaram perto de R$ 200 milhões em 2024. Em cinco anos, o total apreendido superou R$ 440 milhões.
Segundo o Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras, o contrabando de vapes pode alcançar margem de lucro de 259%. O mercado clandestino desses dispositivos movimentaria aproximadamente R$ 7,81 bilhões por ano, sem recolhimento de tributos e com recursos que alimentam atividades criminosas.
O tamanho da demanda também é maior do que indicavam levantamentos anteriores. O 1º Levantamento Nacional sobre a Demanda por Bens e Serviços Ilícitos, realizado pela Escola de Segurança Multidimensional da USP em parceria com o Instituto Ipsos, estima que 10 milhões de brasileiros consomem regularmente produtos alternativos de nicotina. Desse total, aproximadamente 8,5 milhões usam vapes e 1,5 milhão utiliza sachês de nicotina.
Os números demonstram que a proibição não eliminou os produtos nem reduziu a demanda. Na prática, criou um mercado de milhões de consumidores abastecido exclusivamente por vendedores que atuam fora de qualquer controle de qualidade, fiscalização, tributação ou verificação de idade.
Austrália e Brasil enfrentam versões do mesmo problema
Na Austrália, cigarros legais se tornaram muito mais caros do que os produtos clandestinos, enquanto o acesso legal aos vapes permanece limitado. No Brasil, os cigarros eletrônicos foram completamente empurrados para a ilegalidade.
Embora os modelos sejam diferentes, os dois países enfrentam uma consequência semelhante: uma parcela relevante da demanda é atendida por mercados que não obedecem às regras do Estado.
A Austrália mostra até onde esse processo pode chegar. O mercado clandestino deixou de ser apenas uma questão de contrabando e arrecadação. Ele passou a influenciar a segurança das cidades, o funcionamento de lojas, o preço dos seguros e a sobrevivência de pequenos negócios.
No Brasil, o crescimento das apreensões e a facilidade de compra dos dispositivos demonstram que a fiscalização, sozinha, não conseguiu conter a oferta. Sem uma estrutura legal de controle, também não existem mecanismos efetivos para fiscalizar ingredientes, limitar concentrações, rastrear produtos, verificar compradores ou responsabilizar formalmente os vendedores.
Regulação pode retirar espaço do mercado clandestino
Regular não significa liberar sem regras. Um mercado regulado pode estabelecer:
- venda exclusiva para adultos;
- controle de identidade nos pontos de venda;
- registro e rastreabilidade dos produtos;
- padrões de composição e fabricação;
- limites de concentração;
- regras de embalagem e rotulagem;
- restrições de publicidade;
- fiscalização e aplicação de penalidades;
- cobrança de impostos compatíveis com os objetivos da política pública.
Esses instrumentos não existem no comércio clandestino.
A experiência australiana mostra que políticas públicas precisam considerar o comportamento real do mercado. Restrições que ampliam excessivamente a diferença de preço ou dificultam o acesso legal podem aumentar a vantagem econômica dos produtos ilegais.
Quando o mercado clandestino se torna dominante, recuperar o controle pode ser muito mais difícil e caro.
O custo da ilegalidade não fica restrito ao consumidor
Os incêndios em Melbourne demonstram que as consequências do mercado ilegal podem alcançar pessoas que nunca compraram ou venderam produtos de tabaco ou nicotina.
Comerciantes perdem cobertura de seguro. Trabalhadores ficam sem emprego. Proprietários têm imóveis desvalorizados. Clientes deixam de circular por determinadas regiões. Bombeiros e policiais precisam responder a ocorrências cada vez mais graves.
A Austrália transformou-se em um alerta internacional sobre o que acontece quando organizações criminosas encontram um mercado altamente lucrativo, uma demanda persistente e poucos caminhos legais capazes de competir com a oferta clandestina.
Para o Brasil, a principal lição é clara: proibir um produto não significa controlar seu mercado. Uma política eficiente precisa reduzir o espaço econômico do contrabando, estabelecer regras proporcionais, proteger os consumidores adultos e concentrar a repressão sobre quem vende ilegalmente ou fornece produtos a menores.
Caso contrário, o país pode continuar expandindo um mercado bilionário que existe fora de qualquer controle, fiscalização ou responsabilidade.
Perguntas frequentes
Por que lojas próximas a tabacarias estão perdendo o seguro na Austrália?
As seguradoras avaliam que esses estabelecimentos podem ser atingidos por incêndios criminosos direcionados às tabacarias. Por isso, algumas empresas recusam a cobertura, aumentam o preço ou excluem danos causados por incêndio.
Quantos ataques relacionados ao tabaco ilegal ocorreram na Austrália?
Mais de 200 ataques incendiários contra imóveis comerciais e residenciais foram relacionados à disputa pelo mercado ilegal de tabaco desde 2023.
Qual é a relação entre o mercado ilegal e os preços dos cigarros?
Um maço legal pode custar mais de 40 dólares australianos, enquanto produtos clandestinos são encontrados por aproximadamente 10 dólares. Essa diferença aumenta a procura pelo mercado ilegal e a rentabilidade das organizações criminosas.
O que o caso tem em comum com o Brasil?
Nos dois países, restrições severas convivem com uma demanda que não desapareceu. No Brasil, os vapes continuam sendo vendidos ilegalmente, sem controle de idade, qualidade, procedência ou composição.
A regulação acabaria com o mercado ilegal?
Nenhuma medida isolada elimina completamente o contrabando. A regulação pode reduzir sua vantagem ao criar uma alternativa legal, fiscalizada e rastreável, enquanto a repressão permanece direcionada aos produtos clandestinos e à venda para menores.
