Pesquisas nos Estados Unidos associam restrições aos cigarros eletrônicos ao aumento do tabagismo em determinados grupos. Os resultados questionam políticas avaliadas apenas pela redução do uso de vapes.
Em resumo
- Restrições aos vapes podem reduzir seu consumo e, simultaneamente, favorecer o cigarro convencional.
- Uma pesquisa com mais de 242 mil jovens adultos associou restrições a sabores a um aumento de 2,2 pontos percentuais no tabagismo diário.
- Outro estudo estimou entre 11 e 15 cigarros adicionais vendidos para cada unidade equivalente a um pod de 0,7 mL que deixou de ser comercializada.
- Os resultados variam conforme a política e a população. São Francisco e a proibição estadual da Califórnia oferecem exemplos distintos.
- Avaliar essas medidas exige acompanhar o consumo dos dois produtos e suas consequências para a saúde.
Restringir cigarros eletrônicos pode produzir um efeito contrário ao esperado: favorecer o consumo de cigarros convencionais. Estudos sobre impostos, sabores e acesso aos vapes identificaram esse movimento em diferentes populações dos Estados Unidos, colocando uma questão central para o controle do tabagismo: uma política pode reduzir o uso de vapes e, ao mesmo tempo, aumentar o consumo do produto mais nocivo.
Essa possibilidade muda a forma de avaliar as restrições. Contabilizar menos usuários de cigarros eletrônicos mostra apenas parte do resultado. Também é necessário verificar quantas pessoas deixaram todos os produtos, quantas continuaram fumando e quantas passaram a recorrer ao cigarro.
Por que restringir vapes pode favorecer o tabagismo?
A explicação investigada pelos pesquisadores é a substituição entre produtos. Quando o vape fica mais caro, menos acessível ou perde características valorizadas pelos consumidores, parte deles pode recorrer ao cigarro convencional.
Em termos econômicos, uma restrição altera a escolha disponível. O cigarro pode se tornar relativamente mais barato ou mais fácil de obter, mesmo sem qualquer mudança em seu próprio preço. A retirada de sabores também pode reduzir o interesse pelo vape sem eliminar a procura por nicotina. Estudos de consumo e vendas encontraram resultados compatíveis com esse mecanismo.
A diferença entre os produtos torna essa substituição relevante para a saúde pública. A revisão de evidências publicada pelo governo inglês em 2022 encontrou exposição significativamente menor a diversas substâncias tóxicas entre pessoas que usam vapes, em comparação com aquelas que fumam. A combustão do tabaco tem papel central nos danos provocados pelo cigarro.
Portanto, uma avaliação de saúde pública precisa considerar tanto a quantidade de usuários quanto o produto consumido.
Restrições a sabores foram associadas a mais tabagismo diário
Uma pesquisa publicada no JAMA Health Forum analisou dados de 242.154 pessoas de 18 a 29 anos, coletados entre 2016 e 2023. Os pesquisadores compararam mudanças no consumo em estados com restrições a sabores de cigarros eletrônicos com aquelas observadas em estados sem essas medidas.
Na análise principal, as restrições foram associadas a uma redução de 3,6 pontos percentuais no uso diário de vapes e a um aumento de 2,2 pontos percentuais no tabagismo diário. Em relação às médias de 2018, o aumento estimado do tabagismo correspondeu a 22%.
Os resultados indicam que a queda do uso de cigarros eletrônicos pode vir acompanhada de um deslocamento para o cigarro. A pesquisa também identificou diferenças entre políticas: a regra de Maryland, que tinha abrangência e exceções próprias, foi associada à redução dos dois comportamentos. O desenho da restrição, portanto, faz diferença.
O efeito também aparece nas vendas de cigarros
Dados do comércio oferecem outra perspectiva sobre essa substituição.
Um estudo publicado no American Journal of Health Economics, com informações de vendas entre 2018 e março de 2023, estimou que restrições a sabores de vapes resultaram em 11 a 15 cigarros adicionais vendidos para cada unidade equivalente a um pod de 0,7 mL que deixou de ser comercializada.
A maior parte do aumento veio de cigarros sem mentol. O crescimento também alcançou marcas consumidas de maneira desproporcional por menores de idade.
Essa relação entre as vendas revela uma consequência importante das restrições: a queda na comercialização de vapes pode vir acompanhada de um aumento nas vendas de cigarros. Avaliar apenas a redução dos vapes pode, portanto, esconder o avanço dos produtos combustíveis.
São Francisco: um alerta que exige contexto
Na Califórnia, São Francisco tornou-se um dos casos mais conhecidos desse debate. Um estudo publicado em 2021 no JAMA Pediatrics comparou o tabagismo entre estudantes menores de 18 anos na cidade e em outros sete distritos.
Na onda da pesquisa identificada como 2019, o consumo de cigarros nos 30 dias anteriores foi de 6,2% em São Francisco e 2,8% nos demais distritos. A análise ajustada encontrou associação entre a proibição parcialmente implementada de produtos com sabores e maiores chances de fumar, em relação às mudanças observadas nos locais de comparação.
Há um detalhe essencial: uma correção publicada em 2022 esclareceu que os dados de São Francisco haviam sido coletados no fim de 2018, depois da entrada em vigor da lei, mas antes da aplicação de penalidades. O trabalho, portanto, não permite estabelecer o efeito da proibição plenamente fiscalizada.
Também é preciso separar esse caso municipal da proibição estadual da Califórnia, vigente desde dezembro de 2022 e que abrangeu produtos com sabores, incluindo cigarros mentolados.
Uma análise publicada em 2025 no American Journal of Public Health associou a medida estadual a uma queda de 10,55% nas vendas de maços de cigarros e de 36,98% na quantidade de nicotina vendida em cigarros eletrônicos, em comparação com estados de controle. Os dados cobriam os canais de varejo monitorados e não incluíam vendas pela internet ou em lojas especializadas em vapes.
Esses resultados mostram que políticas diferentes, avaliadas em períodos e populações distintos, não podem ser tratadas como uma única experiência.
Impostos também podem deslocar o consumo
A discussão vai além dos sabores. Encarecer cigarros eletrônicos também pode alterar a relação de preços entre produtos e favorecer o cigarro.
O estudo Intended and Unintended Effects of E-cigarette Taxes on Youth Tobacco Use, publicado em 2023, analisou duas grandes pesquisas com estudantes nos Estados Unidos. Na base Monitoring the Future, o aumento de US$ 1 no imposto padronizado por mililitro de líquido foi associado a uma redução de aproximadamente 1,9 ponto percentual no uso recente de vapes e a um aumento de cerca de 1,3 ponto percentual no consumo recente de cigarros.
A outra base apresentou resultados na mesma direção, mas com maior incerteza estatística. A pesquisa reforça que o efeito de um imposto sobre a saúde depende também da resposta dos consumidores e das alternativas disponíveis.
Como a análise de 11 estudos se encaixa nesse cenário?
O trabalho de Christopher Lowenstein, Jamie Hartmann-Boyce e Michael F. Pesko amplia essa discussão ao reunir resultados de 11 estudos sobre restrições aos cigarros eletrônicos nos Estados Unidos.
Disponibilizada como documento de trabalho no SSRN em setembro de 2026, a pesquisa encontrou, na análise principal, um aumento relativo estimado de 5,2% no tabagismo. Para comparar medidas diferentes, os autores utilizaram uma escala que expressa uma restrição com efeito sobre o uso de vapes equivalente ao de um aumento de US$ 1 no imposto.
O trabalho reúne evidências de que dificultar o acesso aos vapes pode deslocar parte do consumo para os cigarros convencionais. Esse mecanismo também aparece em pesquisas sobre restrições de sabores e aumento de impostos.
O sucesso de uma política precisa incluir menos tabagismo
Os estudos apresentados sustentam uma preocupação concreta: medidas dirigidas aos cigarros eletrônicos podem favorecer o cigarro em determinadas circunstâncias. Esse efeito merece integrar a avaliação das políticas desde o início.
Uma avaliação consistente precisa acompanhar a iniciação entre adolescentes, o tabagismo diário, o abandono do cigarro, o uso simultâneo de produtos e as mudanças nas vendas. Também precisa separar adolescentes de jovens adultos e distinguir restrições exclusivas aos vapes de medidas que abrangem produtos combustíveis.
A proteção dos jovens exige atenção aos resultados efetivos. Quando uma política reduz o uso de vapes, mas aumenta o tabagismo, a queda do primeiro indicador é insuficiente para demonstrar sucesso em saúde pública.
Referências
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