Pesquisa com dados de nove anos mostra avanço dos produtos sem combustão, principalmente entre os adultos mais jovens, e queda contínua no consumo de cigarros.
A maneira como os adultos norte-americanos consomem tabaco e nicotina está mudando. Entre 2015 e 2023, o uso exclusivo de cigarros eletrônicos cresceu, em média, 18,8% ao ano, enquanto o consumo de produtos que queimam tabaco seguiu o caminho contrário.
Os dados fazem parte de um estudo publicado na revista JNCI Cancer Spectrum, que analisou informações da Pesquisa Nacional de Entrevistas de Saúde dos Estados Unidos. O levantamento é realizado anualmente e reúne respostas de aproximadamente 27 mil adultos.
A JNCI Cancer Spectrum é uma revista científica internacional de acesso aberto, revisada por pares e publicada pela Oxford University Press. O periódico reúne pesquisas sobre diferentes áreas da oncologia, incluindo prevenção, fatores de risco, epidemiologia, diagnóstico, tratamento e políticas de controle do câncer. Por disponibilizar gratuitamente seus artigos, a revista contribui para ampliar o acesso de pesquisadores, profissionais de saúde e do público às evidências mais recentes sobre a doença.
Os pesquisadores dividiram os participantes em três grupos: pessoas que utilizavam somente produtos combustíveis, como cigarros, charutos, cachimbos e narguilés; aquelas que consumiam exclusivamente produtos sem combustão, principalmente cigarros eletrônicos; e usuários das duas categorias.
Produtos combustíveis registram queda
Na população adulta como um todo, o uso exclusivo de produtos combustíveis caiu de 15,7% em 2015 para 11,2% em 2023. A redução média foi de 3,6% ao ano durante o período analisado.
A queda se tornou ainda mais acentuada nos anos mais recentes. Entre 2019 e 2023, o uso exclusivo de cigarros convencionais diminuiu, em média, 6,6% ao ano.
Enquanto isso, a proporção de adultos que utilizavam somente produtos sem combustão mais que dobrou, passando de 2,7% para 5,6%. Os cigarros eletrônicos foram os principais responsáveis por esse crescimento, registrado em todas as faixas etárias e entre homens e mulheres.
Para os autores, esse movimento indica que o consumo de tabaco e nicotina nos Estados Unidos está gradualmente se afastando dos produtos que envolvem a queima do tabaco.
Mudança é mais evidente entre os jovens
A transformação foi especialmente forte entre os adultos de 18 a 24 anos. Nessa faixa etária, o uso exclusivo de produtos combustíveis caiu de 14,2% em 2015 para apenas 2,9% em 2023.
No mesmo período, o consumo exclusivo de produtos sem combustão aumentou de 3,9% para 10,9%. Com isso, em 2023, o uso exclusivo de cigarros eletrônicos já era mais frequente entre esses jovens adultos do que o consumo de qualquer produto de tabaco combustível.
Uma mudança parecida foi observada entre as pessoas de 25 a 34 anos. O uso exclusivo de combustíveis recuou de 19,1% para 9,8%, enquanto o de produtos sem combustão avançou de 3,1% para 9,4%.
Entre os adultos com 35 anos ou mais, a transição ocorreu de forma mais lenta. Os produtos combustíveis continuaram sendo os mais utilizados, sobretudo entre as pessoas com 55 anos ou mais.
Uso combinado não aumentou
Um dos pontos acompanhados pelos pesquisadores foi o uso dual, quando a mesma pessoa consome produtos combustíveis e sem combustão. Essa prática pode limitar a redução da exposição às substâncias tóxicas, já que a pessoa continua inalando a fumaça produzida pela queima do tabaco.
Apesar do aumento do uso de cigarros eletrônicos, a pesquisa não encontrou um crescimento expressivo do consumo combinado. O uso dual representava 2,8% da população adulta tanto em 2015 quanto em 2023, com pequenas oscilações nos anos intermediários.
A combinação mais frequente foi a de cigarros convencionais com eletrônicos, mas esse padrão também permaneceu relativamente estável.
Ausência de combustão reduz a exposição
Os autores destacam que produtos sem combustão não são isentos de riscos e podem causar dependência de nicotina. Ainda assim, a ausência da queima evita a produção da fumaça e reduz a exposição a muitas das substâncias tóxicas e potencialmente cancerígenas presentes nos cigarros.
Estudos com marcadores biológicos mostram que a redução é mais significativa quando ocorre a substituição completa. Quem continua fumando enquanto utiliza outro produto tende a obter um benefício menor do que aqueles que abandonam totalmente os combustíveis.
A pesquisa analisou tendências da população, e não o comportamento individual de cada participante. Por isso, não é possível afirmar quantas pessoas trocaram diretamente o cigarro pelo vape nem concluir que o aumento do uso de cigarros eletrônicos foi o responsável pela queda do tabagismo.
Ainda assim, os resultados revelam uma mudança importante no mercado norte-americano: o cigarro convencional está perdendo espaço, principalmente entre os adultos mais jovens, enquanto cresce o uso exclusivo de alternativas que não envolvem a combustão do tabaco.
Estudo aponta movimento contrário ao efeito “porta de entrada”
Um dos principais argumentos utilizados por quem defende a proibição dos cigarros eletrônicos no Brasil é o chamado efeito “porta de entrada”. Segundo essa hipótese, pessoas que começam a usar vape poderiam migrar posteriormente para o cigarro convencional, algo que, supostamente, não ocorreria sem a existência desses produtos.
Os dados desta pesquisa, porém, apontam para um movimento na direção oposta. Ao mesmo tempo que o uso exclusivo de cigarros eletrônicos cresceu, o consumo de produtos de tabaco combustíveis diminuiu, sugerindo um deslocamento dos cigarros (a forma mais prejudicial de consumir nicotina) para alternativas sem combustão de menor risco.
Embora tendências populacionais não permitam acompanhar a trajetória individual de cada usuário, o cenário observado se aproxima mais de uma possível “porta de saída” do tabagismo do que de uma migração generalizada dos vapes para os cigarros.
Essa interpretação também encontra respaldo nas evidências sobre cessação. A revisão viva da Biblioteca Cochrane, atualizada continuamente, concluiu com alto grau de certeza que os cigarros eletrônicos com nicotina aumentam as chances de parar de fumar quando comparados às Terapias de Reposição de Nicotina (TRN), como adesivos e chicletes vendidos em farmácias. Na atualização mais recente, de cada 100 pessoas, entre 8 e 11 conseguiram parar de fumar utilizando cigarros eletrônicos com nicotina, enquanto cerca de 6 conseguiram com terapias de reposição de nicotina, como adesivos e chicletes.. Confira a revisão da Cochrane.
Leia o abstract completo em português: https://vaporaqui.net/tendencias-uso-tabaco-combustivel-nao-combustivel-eua/.
Referências:
ANDERSON, Ali. Exclusive vaping rises 18.8% a year as US adults move away from smoking, study shows. Clearing the Air, 7 aug. 2026. Disponível em: https://clearingtheair.eu/en/post/exclusive-vaping-rises-18-8-a-year-as-us-adults-move-away-from-smoking-study-shows/. Acesso em: 12 ago. 2026.
CUMMINGS, Kenneth Michael et al. Trends in adult exclusive and dual use of combustible and non-combustible tobacco products in the United States. JNCI Cancer Spectrum, v. 10, n. 4, pkag062, jul. 2026. Disponível em: https://academic.oup.com/jncics/article/10/4/pkag062/8740538. Acesso em: 12 ago. 2026.
