Revisão aponta queda no uso de cigarros convencionais e na exposição a substâncias tóxicas entre pessoas com esquizofrenia e outros transtornos mentais graves.
Pessoas com transtornos do espectro da esquizofrenia fumam em proporções muito maiores do que a população em geral e, frequentemente, apresentam maior dependência de nicotina. Uma revisão publicada na revista científica Frontiers in Psychiatry indica que os vapes podem ajudar parte desse grupo a reduzir ou abandonar o cigarro convencional.
Os pesquisadores analisaram estudos publicados entre janeiro de 2020 e fevereiro de 2026. Ao todo, a revisão reuniu quatro publicações, com 323 participantes diagnosticados com esquizofrenia ou outros transtornos mentais graves.
A Revista Frontiers in Psychiatry
A Frontiers in Psychiatry é um periódico científico internacional de acesso aberto e revisado por pares, publicado pela editora suíça Frontiers Media SA. A revista é dedicada a promover o avanço da pesquisa translacional, clínica e básica no campo da psiquiatria e da saúde mental, cobrindo temas fundamentais como esquizofrenia, transtornos de ansiedade, depressão, vícios, neurociência comportamental e psiquiatria digital. Indexada em bases de prestígio como a Web of Science e a Scopus, destaca-se por sua ampla visibilidade e alto fator de impacto, sendo reconhecida mundialmente como um importante fórum para a divulgação de inovações terapêuticas e diagnósticas que visam melhorar o tratamento e o bem-estar de pacientes com transtornos mentais.
Tabagismo afeta de forma desigual pessoas com esquizofrenia
Segundo a revisão, as taxas de tabagismo entre pessoas com transtornos do espectro da esquizofrenia são de duas a quatro vezes maiores do que entre indivíduos sem transtornos psiquiátricos.
O cigarro convencional contribui para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares, respiratórias e diferentes tipos de câncer. Nesse grupo, o tabagismo também está relacionado a fatores como dependência mais intensa, estresse, isolamento social e dificuldade para abandonar hábitos já incorporados à rotina.
Apesar disso, pessoas com transtornos mentais graves nem sempre recebem o mesmo acesso a tratamentos e acompanhamento para parar de fumar.
Estudos mostram redução expressiva do consumo
Em um dos estudos, 40 adultos com esquizofrenia ou transtorno esquizoafetivo receberam cigarros eletrônicos com nicotina durante 12 semanas. Ao final desse período, 87,5% haviam reduzido pela metade ou mais o número de cigarros fumados diariamente, enquanto 40% deixaram de fumar cigarros convencionais.
Outro estudo também registrou redução no consumo diário e nos níveis de monóxido de carbono entre os participantes que receberam os dispositivos. Durante as oito semanas de intervenção, entre 19% e 22% ficaram sem fumar cigarros convencionais, resultado que não foi observado no grupo de comparação.
Uma terceira pesquisa avaliou a distribuição de kits de cigarros eletrônicos como complemento ao atendimento em saúde mental. Após um mês, 61,9% dos participantes que receberam os dispositivos reduziram o consumo de cigarros pela metade ou mais, contra 13,6% no grupo que manteve apenas o atendimento habitual.
Menor exposição a substâncias tóxicas
Os benefícios observados não se limitaram à quantidade de cigarros fumados. Os pesquisadores também identificaram redução nos níveis de NNAL¹, marcador utilizado para avaliar a exposição a uma substância cancerígena específica do tabaco.
Essa queda foi mais acentuada entre os participantes que substituíram o cigarro convencional pelo eletrônico. O resultado reforça a diferença entre produtos com e sem combustão, já que a queima do tabaco é responsável pela liberação de grande parte das substâncias tóxicas associadas ao cigarro.
Por que essa alternativa pode funcionar?
Além de fornecer nicotina, o cigarro eletrônico preserva alguns aspectos comportamentais relacionados ao ato de fumar, como o movimento das mãos, a inalação e a possibilidade de controlar o uso ao longo do dia.
Para pessoas com dependência mais elevada, essas características podem facilitar a substituição do cigarro convencional, principalmente quando o acesso ao dispositivo é acompanhado de orientação profissional e apoio comportamental.
Nos estudos analisados, os cigarros eletrônicos foram geralmente bem tolerados e não provocaram piora relevante dos sintomas psiquiátricos.
Embora a quantidade de pesquisas ainda seja pequena, os resultados indicam que os cigarros eletrônicos podem integrar estratégias individualizadas de redução de danos para adultos com transtornos mentais graves que encontram dificuldades para abandonar o cigarro por outros métodos.
Leia o abstract traduzido em: https://vaporaqui.net/cigarros-eletronicos-esquizofrenia-revisao/.
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¹ NNAL (sigla para 4-(metilnitrosamino)-1-(3-piridil)-1-butanol) é um metabólito específico do tabaco que funciona como um importante biomarcador bioquímico para medir a exposição a substâncias cancerígenas derivadas da nicotina e do fumo
Referências em ABNT
CAPONNETTO, Pasquale et al. Latest developments in the use of e-cigarettes by people with schizophrenia spectrum disorders who smoke: a scoping review. Frontiers in Psychiatry, v. 17, art. 1811946, 21 jul. 2026. DOI: 10.3389/fpsyt.2026.1811946. Disponível em: Frontiers in Psychiatry. Acesso em: 10 ago. 2026.
CARUANA, Diane. The overlooked smoking crisis in mental health, and how vaping could help. Vaping Post, 8 ago. 2026. Disponível em: Vaping Post. Acesso em: 10 ago. 2026.
