Análise de 80 estudos, com quase 30 mil participantes, conclui novamente que cigarros eletrônicos com nicotina são mais eficazes do que adesivos e gomas de nicotina para adultos que desejam abandonar o cigarro convencional.
Cigarros eletrônicos com nicotina ajudam mais pessoas a parar de fumar do que métodos tradicionais de reposição de nicotina, como adesivos e gomas de mascar. A conclusão aparece mais uma vez na nova atualização de uma revisão sistemática da Cochrane, publicada em agosto de 2026.
A análise reuniu 80 estudos randomizados, com 29.861 adultos que fumavam. Nove pesquisas foram incorporadas nesta atualização, mas a principal conclusão permaneceu a mesma: os vapes com nicotina apresentam taxas de cessação superiores às da terapia de reposição de nicotina.
Os pesquisadores avaliaram quantas pessoas conseguiram permanecer sem fumar por pelo menos seis meses. A cada 100 adultos que tentam abandonar o cigarro, aproximadamente oito a dez conseguem parar utilizando vapes com nicotina. Entre aqueles que recorrem a adesivos, gomas de mascar ou outros produtos de reposição de nicotina, cerca de seis conseguem o mesmo resultado.
A estimativa representa aproximadamente quatro pessoas adicionais que deixam de fumar a cada grupo de 100. Quando projetada para uma população de milhões de fumantes, essa diferença tem um impacto relevante na prevenção de doenças associadas ao tabagismo.
O que é a Cochrane e por que suas revisões são importantes?
A Cochrane é uma organização internacional, independente e sem fins lucrativos criada em Oxford, no Reino Unido, em 1993. Sua principal função é reunir, avaliar e sintetizar pesquisas científicas para responder, da forma mais confiável possível, se tratamentos e intervenções de saúde realmente funcionam.
Em vez de basear uma conclusão em apenas um estudo, os pesquisadores da Cochrane procuram todas as pesquisas relevantes sobre determinado tema, analisam a qualidade metodológica de cada uma e combinam seus resultados. Esse processo ajuda a reduzir a influência de estudos isolados, amostras pequenas, resultados contraditórios ou possíveis vieses.
Por seguir critérios rigorosos e transparentes, as revisões Cochrane são frequentemente consideradas uma referência ou “padrão-ouro” da síntese de evidências em saúde. A relação com a Organização Mundial da Saúde é institucional: a Cochrane mantém relações oficiais com a OMS desde 2011 e suas revisões são utilizadas na elaboração de diretrizes internacionais.
Em 2021, por exemplo, 76% das novas diretrizes publicadas pela OMS utilizaram evidências provenientes de revisões Cochrane. Até fevereiro de 2022, 732 revisões da organização haviam contribuído para 251 diretrizes e recomendações reconhecidas pela OMS.
Isso não significa que a OMS endosse automaticamente cada conclusão publicada pela Cochrane. Significa que a organização reconhece a relevância de sua metodologia e utiliza essas revisões como uma das principais fontes de evidências para orientar decisões em saúde.
A revisão sobre cigarros eletrônicos e cessação do tabagismo foi publicada pela primeira vez em 2014. Depois de atualizações em diferentes anos, ela passou, em 2020, a funcionar como uma “revisão sistemática viva”.
Na prática, isso significa que o grupo responsável não encerra o trabalho depois da publicação. Os pesquisadores continuam procurando novos estudos, avaliando os resultados e atualizando a análise sempre que surgem evidências capazes de modificar ou reforçar as conclusões.
O fato de a nova versão ter incorporado nove estudos e ainda assim manter a conclusão principal é relevante. A superioridade dos vapes com nicotina em relação a adesivos e gomas de mascar não apareceu apenas em uma pesquisa isolada: ela permaneceu consistente após diferentes atualizações, com novos participantes e novos dados.
O que significa uma evidência de “alta certeza”?
A comparação direta entre cigarros eletrônicos com nicotina e terapias de reposição de nicotina reuniu 11 estudos e 4.114 participantes. A Cochrane classificou esse conjunto de resultados como evidência de alta certeza.
Essa classificação não significa certeza absoluta nem garante que todas as pessoas terão o mesmo resultado. “Alta certeza” quer dizer que os pesquisadores estão muito confiantes de que o efeito real está próximo daquele estimado pelos estudos.
Para chegar a essa avaliação, são considerados fatores como risco de viés, consistência dos resultados, tamanho e precisão das estimativas, diferenças entre as pesquisas e possibilidade de que estudos relevantes não tenham sido publicados.
A classificação é feita pelo sistema GRADE, que organiza a certeza da evidência em quatro níveis: alta, moderada, baixa e muito baixa. Quanto maior o nível, menor a probabilidade de que novos estudos alterem de maneira substancial a conclusão.
Nesse caso, a alta certeza indica que novas pesquisas podem aperfeiçoar a estimativa, mostrando, por exemplo, se o benefício corresponde a três, quatro ou cinco pessoas adicionais a cada 100, mas é pouco provável que revertam completamente a conclusão de que os vapes com nicotina são mais eficazes do que adesivos e gomas de mascar.
Os vapes com nicotina também apresentaram resultados superiores aos dispositivos sem nicotina. Nessa comparação, a certeza foi considerada moderada. Isso sugere que a entrega de nicotina tem papel importante no controle da abstinência e da vontade de fumar, além da substituição do comportamento associado ao cigarro.
Na comparação com aconselhamento comportamental isolado ou nenhuma assistência, as taxas de abandono também foram maiores entre as pessoas que receberam cigarros eletrônicos. A confiança nesse resultado, porém, foi menor devido às características dos estudos, incluindo o fato de os participantes saberem qual intervenção estavam recebendo.
Benefício está concentrado em adultos que já fumam
Parar de fumar costuma ser difícil porque a dependência envolve fatores físicos, psicológicos e comportamentais. Além dos sintomas provocados pela falta de nicotina, muitas pessoas associam o cigarro a situações cotidianas, como tomar café, enfrentar o estresse ou socializar.
Por isso, diferentes pessoas podem responder melhor a diferentes estratégias. Muitas precisam realizar várias tentativas antes de abandonar definitivamente o cigarro.
Para Nicola Lindson, pesquisadora da Universidade de Oxford e principal autora da revisão, oferecer diferentes alternativas é importante justamente porque uma primeira tentativa nem sempre funciona. Os cigarros eletrônicos podem representar uma dessas opções, especialmente quando outros recursos não apresentaram o resultado esperado.
A experiência do Reino Unido demonstra como essa estratégia foi incorporada aos serviços de cessação. O sistema público de saúde britânico utiliza vapes com nicotina entre os recursos oferecidos a fumantes, de forma isolada ou combinada com aconselhamento, reposição de nicotina e medicamentos.
A lógica da redução de danos é substituir a principal fonte de risco do cigarro: a combustão do tabaco. A queima produz fumaça com milhares de substâncias, incluindo compostos tóxicos e cancerígenos associados a doenças cardiovasculares, respiratórias e diferentes tipos de câncer.
Para que exista uma redução mais significativa da exposição, é importante substituir completamente o cigarro. Continuar fumando enquanto utiliza o vape, prática conhecida como uso duplo, pode preservar uma parte considerável do contato com as substâncias produzidas pela combustão.
Nos estudos analisados, os eventos adversos graves foram pouco frequentes. A revisão não encontrou evidência de aumento de danos graves no período acompanhado, embora os pesquisadores ressaltem a necessidade de estudos maiores e de longo prazo.
Os eventos não graves mais relatados incluíram irritação na boca ou na garganta, tosse, dor de cabeça e náusea. Em geral, esses sintomas diminuíram com a continuidade do uso.
As conclusões se referem a produtos com nicotina submetidos a padrões de fabricação e controle. Dispositivos clandestinos, adulterados ou que contenham outras substâncias, como THC, podem apresentar composição e riscos diferentes.
Os resultados também não representam uma recomendação para adolescentes, pessoas que nunca fumaram ou quem já interrompeu completamente o consumo de nicotina. O benefício analisado está concentrado em adultos fumantes que utilizam o vape para abandonar os cigarros combustíveis.
Ao manter a conclusão mesmo depois da inclusão de nove novos estudos, a atualização de 2026 reforça uma evidência que vem sendo examinada pela Cochrane há mais de uma década: para adultos que fumam, os vapes com nicotina constituem uma opção eficaz de cessação e ajudam mais pessoas a abandonar o cigarro do que adesivos e gomas de mascar.
Referências
LINDSON, Nicola et al. Electronic cigarettes for smoking cessation. Cochrane Database of Systematic Reviews, n. 8, art. CD010216, 2026. DOI: 10.1002/14651858.CD010216.pub11. Disponível em: Cochrane. Acesso em: 26 ago. 2026.
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