Reino Unido inicia discussões que podem colocar à prova seu legado de redução de danos do tabagismo
Londres — O governo britânico lançou uma consulta pública nacional para avaliar uma proposta rigorosa que pretende retirar todas as cores das embalagens de vaporizadores (vapes), limitar os nomes dos sabores e esconder os produtos da visão do público nos estabelecimentos comerciais. Embora o objetivo central seja conter o apelo desses dispositivos entre menores de idade, a medida acendeu um alerta entre especialistas em redução de danos e representantes do setor, que advertem que as restrições podem equiparar visualmente o vape ao cigarro tradicional, desestimulando fumantes adultos a fazerem a transição para alternativas menos prejudiciais.
Anunciada no dia 10 de julho, a proposta busca alcançar um equilíbrio delicado: mitigar o uso por parte de jovens sem sufocar o acesso para adultos que utilizam os cigarros eletrônicos como ferramenta de cessação tabágica.
Padronização extrema: preto, branco e cinza
Pelas regras sugeridas na consulta pública, que terá duração de 12 semanas, os vaporizadores passariam a ser comercializados em embalagens brancas padronizadas, com restrições rígidas a cores de texto, imagens e logotipos. Os próprios dispositivos eletrônicos teriam seu design limitado às cores branca, preta ou cinza. Telas e luzes estéticas seriam proibidas, permitindo-se apenas visores básicos para informações de segurança, como o nível de carga da bateria.
Além disso, os nomes dos líquidos utilizados nos dispositivos seriam restritos a descrições simples e diretas, como “Maçã”. Nomes conceituais, sensoriais ou que façam referência a doces, sobremesas e bebidas alcoólicas ficariam banidos do mercado regulado. A exibição nas lojas seguiria o mesmo modelo do tabaco combustível: os produtos deveriam ser mantidos guardados e fora do campo de visão direto dos clientes.
O secretário de Saúde britânico, James Murray, defendeu as medidas afirmando que as evidências sobre a experimentação por parte de jovens são claras. “Há muitos jovens testando vapes, atraídos por uma infinidade de sabores, cores vibrantes e exibições comerciais chamativas”, pontuou. “Queremos um futuro mais saudável para a próxima geração […]. Os vapes são menos prejudiciais que os cigarros e desempenham um papel importante para ajudar fumantes adultos a abandonar o vício, mas nunca deveriam ser desenhados ou promovidos de forma a tentar as crianças.”
O dilema da equivalência visual e a desinformação
Apesar do apelo governamental, instituições de saúde pública e entidades ativistas pedem cautela na dosagem regulatória. De acordo com dados recentes da organização Action on Smoking and Health (ASH), cerca de 19% dos jovens entre 11 e 17 anos relataram ter experimentado vapes em 2026, embora os níveis de uso regular tenham se estabilizado desde 2023.
O grande entrave identificado por especialistas é a percepção pública do risco. Organizações renomadas como o próprio serviço de saúde britânico (NHS) e a Cancer Research UK reiteram que os vapes regulamentados são significativamente menos nocivos do que o cigarro convencional e expõem os usuários a uma quantidade muito menor de toxinas. No entanto, pesquisas da ASH revelam que 52% dos adultos fumantes no Reino Unido acreditam erroneamente que o vaping é tão ou mais prejudicial quanto fumar tabaco.
Hazel Cheeseman, diretora executiva da ASH, alertou para o risco de a nova regulação agravar essa barreira psicológica. “Proteger as crianças contra o marketing agressivo é o correto […]. Ao mesmo tempo, há um equilíbrio cuidadoso a ser mantido. O desafio agora é passar pela agulha de tornar o vaping menos atraente para as crianças sem torná-lo menos eficaz para adultos que querem parar de fumar. Se errarmos a mão, corremos o risco de desacelerar o progresso contra o tabagismo, que continua sendo a principal causa de morte evitável.”
Vantagem para o mercado ilegal e proteção à “Big Tobacco”
A reação do setor produtivo e de associações de consumidores foi ainda mais incisiva. John Dunne, diretor-geral da UK Vaping Industry Association (UKVIA), apontou que a premissa de que as cores são o principal fator de atração dos jovens contradiz as próprias pesquisas da ASH, que indicam a curiosidade e a influência de amigos como os maiores impulsionadores do uso juvenil, apenas 4,9% dos menores apontaram o visual do aparelho como fator crucial na escolha, ante 42% que citaram o sabor.
“Colocar vapes em embalagens genéricas e obrigar os varejistas a escondê-los vai reforçar um equívoco perigoso e desencorajar a migração de fumantes”, criticou Dunne. “Uma abordagem genérica que torne o vaporizador indistinguível do tabaco vai simplesmente entregar de bandeja uma vantagem competitiva ao mercado ilegal, onde não existem controles de segurança, auditoria de ingredientes ou verificação de idade.”
A preocupação com o sufocamento das opções de menor risco e o consequente fortalecimento do contrabando também foi ecoada por representantes internacionais de outros produtos sem fumaça, como os sachês de nicotina (nicotine pouches). Sam Lundell, da Associação Sueca de Usuários de Snus, argumentou que a padronização de embalagens acaba por blindar as grandes corporações do tabaco (Big Tobacco), uma vez que o consumidor, diante de marcas visualmente idênticas, tende a se refugiar nas marcas globais já consolidadas, reduzindo a concorrência e a inovação em redução de danos.
Contexto regulatório amplo
A consulta de embalagens genéricas faz parte de um pacote mais amplo de endurecimento das políticas de nicotina no Reino Unido, impulsionado pela aprovação da Lei de Tabaco e Vapes de 2026, que estabeleceu a proibição geracional do tabaco (tornando ilegal a venda de cigarros para qualquer pessoa nascida a partir de 1º de janeiro de 2009). Entre as medidas em andamento, incluem-se a proibição de vapes descartáveis (em vigor desde 2025), a introdução de um imposto sobre produtos de vaporização previsto para outubro de 2026, além de restrições severas à publicidade marcadas para 2027.


